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Na Rússia, a atual humilhação é particularmente aguda. Tendo sido uma superpotência nuclear, descobriu que está inaugurando uma nova tipologia de país: é um "novo pobre". Sua renda por habitante é um sexto da japonesa e a dimensão de seu PIB real é ridícula. Isso deveria ter ensinado aos nossos nacionalistas a enorme bobagem de se confundir recursos naturais, que são cadáveres geológicos, com riqueza real, que vem da educação e da tecnologia.
O Brasil nunca chegou ao estágio de superpotência. Mas depois do salto juscelinista dos anos 50 e do "milagre brasileiro" de 1968 até a crise do petróleo [por volta de 1977/78], era uma respeitável potência emergente, que parecia condenada ao sucesso e a tornar-se uma grande potência. No entanto, chegamos ao fim do século XX com um indecente déficit fiscal, um humilhante déficit externo e duas décadas de estagnação.
Haverá semelhanças que expliquem, pelo menos parcialmente, os desapontadores resultados do Brasil e da Rússia? Alguns analistas apontam três semelhanças no século XIX que ainda projetam sombras negativas sobre o presente. Desde aquela época, essas duas nações multiculturais e imperiais (o império russo sobreviveu até 1917 e o brasileiro até 1889) apresentaram três perniciosas analogias: 1 - alta taxa de analfabetismo; 2 - atraso na abolição da escravatura (servos de gleba ou escravos negros); 3 - economia patrimonialista.
Estatísticas reconstruídas pelo professor Nathaniel Leff, de Harvard, sobre a estrutura educacional no século XIX revelam que Brasil e Rússia eram campeões do analfabetismo. Em 1850, apenas 1% da população brasileira era alfabetizada; na Rússia, 2%. Na Europa Ocidental, a situação era melhor e mais diferenciada: 7% na Holanda, 10% na França e 14% na Inglaterra.
A grande surpresa são os Estados Unidos, que já em 1850 tinham 22% da população alfabetizada, provavelmente pela influência dos puritanos imigrantes (cristãos protestantes), que consideravam a leitura da Bíblia condição indispensável da cidadania. Não é de se subestimar a importância econômica de três traços culturais trazidos pelos dissidentes religiosos [dissidentes católicos que se tornaram protestantes]: a alfabetização imposta pela leitura da Bíblia; o coral dominical que impõe hábitos de cooperação e disciplina; e a rebeldia religiosa, que favorecia a mentalidade não conformista.
Um segundo fator de semelhança entre Brasil e Rússia no século XIX foi o prolongamento do regime de servidão. Isso retardou o interesse na busca de alternativas tecnológicas para redução do custo da mão-de-obra, e retardou também o crescimento do mercado interno, refreando a capacidade de consumo dos não-assalariados.
Um terceiro fator de semelhança foi a cultura patrimonialista dos dois regimes imperiais, que retardou o advento do capitalismo competitivo. Nenhum desses países absorveu adequadamente dois elementos básicos da cultura capitalista: a soberania do consumidor e o respeito ao contribuinte.
O grande erro russo no século XX foi a institucionalização do comunismo, esse misto de despotismo político e ineficiência econômica. A Rússia sempre foi vítima de modernizações tiranicamente impostas, e não democraticamente referendadas. Assim foram a modernização de Pedro o Grande e a industrialização forçada de Stalin.
O Brasil teve sorte em não agravar seus problemas por opções institucionais erradas, aderindo desde o começo do século XX à democracia política e à economia de mercado, ainda que sem praticá-las contínua e competentemente. Na realidade, passamos do mercantilismo patrimonialista ao capitalismo de Estado, sem chegarmos ainda à fase do capitalismo liberal-competitivo. O neoliberalismo, de que tanto se fala, seria até uma doença desejável, mas ainda não fomos contaminados...
O artigo completo pode ser visto no site: http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/RobertoCampos/
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