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Nas vastas regiões do Terceiro Mundo, acelerando-se muito depois da Segunda Guerra, sempre apareceram pessoas com aspirações à dignidade e bem-estar, e deles foram surgindo lideranças. Não necessariamente, mas, com freqüência, provindas das elites, sobretudo das elites intelectuais. Natural que precisassem de modelos e, ainda mais, de referências distantes, que validassem as suas esperanças de mudar o mundo e permitissem transmutá-las em projetos de ação concretos.
Esse papel, nas três primeiras décadas do após-guerra, foi exercido pelas formulações marxistas, um tanto estilizadas nas polarizações radicalizantes da Guerra Fria. Muito da discussão teórica sobre o desenvolvimento, nesse período, consistiu em oferecer respostas a alternativas sugeridas pelo pensamento de Marx.
Hoje, é difícil achar algum intelectual que não se arrepie com a idéia de ser confundido com a velha-guarda do socialismo soviético, e alguns até se tornam dissidentes retrospectivos. Entretanto, é justo reconhecer o que Marx trouxe de novo com a sua crítica da sociedade moderna. Veio num momento de inflexão dos paradigmas do pensamento, quando a cosmovisão clássica, da física newtoniana, começava a ver sua base sendo corroída e a grande crise intelectual do final do século XIX já estava em gestação. O capitalismo industrial avançava num terreno vazio, sem críticos radicais nem uma teologia própria. Aliás, a principal vantagem do capitalismo é não ter dogmas nem mitos. É uma cultura comportamental, que prefere fabricar produtos a gerar mitos.
Marx caiu na tentação de usar a utopia como terreno concreto e de oferecê-la como receita de bolo. Além de escrever a sua bíblia (ou antibíblia), que teria a chave de tudo, desde a explicação do cosmos, passando pela História, pela economia até chegar às normas de convívio e do comportamento social. Tentação grande que atraiu a muitos não pela análise crítica do mundo real, mas pelo raiar de uma nova fé. Vieram depois os acomodados, repetidores de palavras de ordem, que procuraram desviar as formidáveis perguntas do desenvolvimento em meras colocações pró-soviéticas na Guerra Fria.
Nos anos 50 e 60, houve um enorme florescimento dos estudos sobre os problemas das economias então ditas "subdesenvolvidas". Mas, depois, o entusiasmo se abateu, e o interesse teórico deslocou-se das “grandes teorias” para o estudo de mecanismos específicos.
Nestes arrabaldes, pouca gente se tem dado conta de que o novo pensamento de raiz marxista está descobrindo, com evidente surpresa, uma série de temas novos sobre o desenvolvimento e a História. Sugestiva, por exemplo, é a ótica dos "sistemas mundiais", trabalhada, entre outros, por I. Wallerstein e E. Wolf, contestada por A. Gunder Frank, para quem o sistema político mundial pré-data de muito a ascensão do capitalismo na Europa e sua hegemonia no mundo.
Quando o velho Marx, em plena era do vapor e do aço, formulou a noção de que a existência determina a consciência, chamou a atenção geral para o fato de que as grandes transformações pelas quais estava passando o mundo tinham uma base nas condições concretas, nas relações de produção e na tecnologia. Depois disso, tivemos uma formidável aceleração (eletricidade, motor a explosão, síntese química, biologia, eletrônica) e, agora, com a globalização digital, estamos entrando em cheio na era da informação. Tudo está mudando muito mais depressa do que nossa capacidade de acompanhar. Assim como o capitalismo do século XVIII acabou com o escravo e o servo da gleba, e o capitalismo americano criou uma sociedade de classe média e de consumo de massa, o novo modo de produção da informação vai criar - o quê? Não sei. Precisamos pensar. Mesmo errando, ou parecendo errar.
O artigo completo pode ser visto no site: http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/RobertoCampos/
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